Pastoral Afro Brasileira da Paróquia Senhor do Bonfim, em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro visita o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos.
Por Wilson Gervace Mtali
Quando se visita um lugar turístico-histórico normalmente se considera passeio, momento de diversão, distrair a mente, e claro com tudo isso aprender algo novo. Talvez isso não seja o caso quando se visita muitos lugares históricos que contam a história do povo preto, que foi forçado a fazer a travessia atlântica para o Brasil. Os lugares históricos do povo preto contêm uma história triste e acontecimentos desumanos que não faz com que a visita seja momento de diversão e passeio no seu sentido restrito, mas sim, um momento de ouvir fatos históricos angustiantes que causam dor, mas também que suscitam força para assumir a luta contra toda forma de desumanização da população negra.
No dia 18 de março, os membros da Pastoral Afro Brasileira da Paróquia Senhor do Bonfim, diocese de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, visitaram o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos. Foi uma oportunidade de ouvir e conhecer a história que talvez para muitos causa desgosto e até mal estar e que não deveria ser contada em detalhes por causa da dor que suscita. Mas para nós, agentes pastorais da Pastoral Afro, é momento de ouvir, conhecer e se comprometer com a luta pelos direitos da população negra que por muitos anos foram negados e ainda hoje continuam sendo negados de várias formas.
O Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos se encontra no centro da cidade do Rio de Janeiro, num espaço pequeno, mas que contém uma história importante sobre o que realmente significa quando se fala da “objetificação ou coisificação” do povo preto no tempo da escravatura.
O local era casa residencial que pertencia ao casal Guimarães, e no processo de reformar a casa, ao cavar se depararam com a presença de muitos ossos. Logo o casal resolveu comunicar aos órgãos responsáveis para que fossem feitas pesquisas para descobrir de quem eram esses ossos, a pesquisa concluiu que eram humanos, a maioria de jovens e crianças e de pessoas pretas. Essas pessoas morreram durante o tráfico de escravos do continente africano e ao chegar ao Brasil, os corpos eram depositados nesse local, mas também se acredita que outras pessoas foram enterradas vivas, essas eram aquelas que ficavam doentes por causa de viagem longa e maus tratos, pois nos navios eram colocadas como mercadorias. As pessoas doentes, portanto, eram consideradas inúteis e logo enterradas nesse local para não causar prejuízo aos donos. O lugar é o maior cemitério de escravos da América Latina.
Na sua explicação, o mediador Valdemar ressaltou o fato de que a história não é interessante nem uma coisa agradável para se ouvir, porém, é importante conhecer, pois muitas vezes é considerada como “choro sem sentido” e é desprezada quando se fala da escravidão e atos desumanos que o povo africano sofreu nas mãos dos donos. Ele insistiu que conhecer a história nos faz capaz de lutar e resistir. Ele ressaltou ainda a importância de levar a juventude para conhecer esse passado.
A nossa história não só carrega o lado triste, mas tem o seu lado muito positivo, que é a contribuição do povo preto na civilização da humanidade, o mediador explicou que nesse cemitério não foram encontrados somente corpos, mas também objetos que os escravos usavam que carregam uma riqueza cultural muito grande, mas ele também levou o grupo ao longo da história antes da colonização, elucidando como a África era organizada política, econômica, social e religiosamente, uma organização incrível que foi destruída pela invasão de colonizadores. Isso tudo é para mostrar quão rico é o povo preto, isso serve para elevar a autoestima do povo preto e assumir a sua história e sua identidade sem baixar a cabeça. Lutar para mudar a realidade imposta pelos dominadores e exploradores e assumir aquilo que realmente é; ser humano, com dignidade, com os mesmos direitos. Além disso, é o povo com cultura própria pela qual deve se orgulhar.
Foi um dia de reafirmação da identidade e assumir mais uma vez a missão da Pastoral Afro, de luta e resistência através da educação e conhecimento como o mediador insistiu: “somente a educação e busca do conhecimento pode mudar a realidade”.